quinta-feira, 29 de março de 2018

Revistando: "O homem é predador das outras espécies", Sebastião Salgado, Revista Época, junho de 2013


"O fotógrafo trocou o mundo do trabalho pela natureza intocada. Dá para salvá-la _ diz ele _ se a humanidade começar a agir."

"Há oito anos, o fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, partiu de seu estúdio, em Paris, para 32 expedições, rumo ao que ele chama de "princípio do planeta": lugares do mundo ainda intocados _ ou quase. O resultado é a mostra Genesis, aberta na semana passada no Museu do Meio Ambiente do Rio de Janeiro. Ela traz 245 fotografias em preto e branco, divididas em cinco seções geográficas, de geleiras a desertos, passando por selvas e ilhas. As expedições às origens da Terra representam uma mudança no trabalho de Salgado. Em duas séries anteriores, Trabalhadores (1986-1992) e Êxodo (1994-1999), ele se devotou ao ser humano e à denúncia social. No novo projeto, sob o impacto da vida natural, dedicou-se a paisagens e animais.
Salgado viajou cerca de 800 quilômetros a pé pela Etiópia, por 55 dias, até chegar ao que chama de "Velho Testamento": tribos de judeus e cristãos que vivem como na Antiguidade. No Círculo Polar Ártico, morou com esquimós. Ainda conviveu com tribos isoladas da Amazônia. Aos 69 anos, afirma ter retornado mais saudável e otimista. "Já não tinha esperanças no futuro da humanidade", disse Salgado a ÉPOCA na abertura da mostra."Agora sei que podemos salvar o planeta."

Época - O senhor fotografou, de forma crítica e trágica, a imigração e a globalização do trabalho. A natureza é a nova oprimida? 
Sebastião Salgado - A natureza é uma vítima, não uma oprimida. As outras espécies, sim. O homem é o predador das outras espécies. A natureza é maior. O alarme está tocando. O aquecimento global é verdadeiro. Mas a natureza vai se refazer. Se a gente compreender sua força, poderemos conviver com ela. Se não, ela expulsará a gente.

Época - O homem se separou da natureza?
Sebastião Salgado - A gente saiu do planeta e virou extraterrestre. Se não retornarmos à natureza, logo estaremos extintos. Os brasileiros não vivem mais no Brasil, moram nas cidades, concentrados. Só 10% dos brasileiros vivem num território que conta com ecossistemas preservados. Não podemos voltar à natureza, mas podemos nos aproximar dela, admirar as plantas, as flores, os insetos. Precisamos voltar a criar ambientes para que todos possamos viver. É o único caminho.

Época - Como o equilíbrio do planeta pode ser restaurado?
Sebastião Salgado - Um modo é fabricar oxigênio, plantando florestas. É preciso ampliar os projetos de recuperação ambiental para ser encampados por governos, empresas e fortunas. Só assim evitaremos o aquecimento global, que já acontece. Começamos a reagir. No Brasil temos ONGs e a Fundação S.O.S. Mata Atlântica, que conseguiram inculcar nos jovens o horror à destruição da natureza. A percepção da natureza há dez anos era bem diferente de hoje.

Época - O planeta ficou tão pequeno com a revolução digital que parece impossível haver algum lugar intocado. Eles existem mesmo ou é uma fantasia sua?
Sebastião Salgado - Há lugares em estado puro. Não vi todos. Em Gênesis, explorei 32, entre milhares de amostras possíveis. Obviamente, não há nada que não tenha sido tocado pelo homem. Mesmo os homens que nunca foram avistados são nossos representantes. Quando sobrevoei a Amazônia tive a sensação de que me perderia na selva e não seria mais encontrado. Era uma ilusão, porque os índios me encontrariam no outro dia. Estive na fronteira com o Peru, com os índios marubos. Andando com eles no mato, me mostraram caminhos possíveis para todo lado. O homem tomou o planeta, mas 46% dele está preservado. Isso é positivo.

Época - Qual o valor, para o homem, das terras virgens? Precisamos abrir mão delas, em nome da ética ou da estética?
Sebastião Salgado - É um valor ético, antropológico e religioso, ainda que eu não creia num ser superior. Creio numa lógica maior: a evolução das espécies. O que me levou a viajar pelo mundo arcaico foi só a curiosidade. Não fui como repórter, estudioso ou militante. Fui como fotógrafo.

Época - Ao captar a natureza, o que o senhor aprendeu?
Sebastião Salgado - Aprendi a fotografar paisagens e animais. Nunca havia feito isso antes. Também me dei conta de que sou tão antigo quanto os homens mais arcaicos. Somos essencialmente iguais. Vi que os animais são todos racionais, dentro de seus ambientes. Galápagos foi o primeiro lugar que explorei. Não fui fotografar os animais, mas a dignidade deles. As tartarugas gigantes de lá temiam águias e falcões, mas farejaram um inimigo maior: o homem. Ao me aproximar de uma delas, coloquei-me a sua altura, de joelhos e de bruços. Ela diminuiu a velocidade, olhou para trás, parou e veio me inspecionar. E aí a fotografei. É difícil fotografar um animal em movimento.

Época - E a experiência com as paisagens?
Sebastião Salgado - Quis me colocar dentro da natureza, compreender a montanha e seus milhões de ano. Vivi momentos emocionantes com árvores de 4 mil anos, na Serra Nevada. Árvores que resistiram a queimadas 2 mil anos atrás, sofreram todo tipo de erosão e hoje são viçosas. Você tem de ter respeito a um ser vivo dessa grandeza.

Época - O senhor viu feiura nos animais ou nas paisagens?
Sebastião Salgado - O conceito de feio é cristão. Você está julgando o objeto. Uma iguana pode despertar uma repugnância, até porque ela passou à história como representação do diabo, um dragão com chifres e escamas. Ao se aproximar dela, percebe-se a beleza da pela, das cores e dos olhos. Aí você começa a ver que ensinaram uma coisa errada. Você aprendeu a ter medo da floresta, porque lá tem o lobo mau. O vulcão, com cheiro de enxofre, foi descrito como o cheio do inferno. São preconceitos. A maior lição é esta: você precisa se desmontar das armadilhas.

Época - Se o senhor pudesse preservar um lugar entre aqueles que fotografou, qual preservaria?
Sebastião Salgado - Todos! A Amazônia poderia se tornar um imenso parque nacional, como os parques americanos que preservam a natureza milenar. Destruir a Amazônia é besteira. Ela pode render com extrativismo sustentável e ecoturismo.

Época - E o lugar mais ameaçado?
Sebastião Salgado - A Ilha de Madagascar corre perigo. Ela manteve por séculos ecossistemas que já não existem na África. Agora as florestas de lá estão sendo devastadas.

Época - O que há de utópico e de realista em seu trabalho?
Sebastião Salgado - A história da humanidade é feita de sonhos materializados. Sonhos e materializações vão gerando a evolução. As imagens de Gênesis mostram coisas, mas a realidade profunda está nos conceitos. O trabalho criativo surge de um conceito. O pintor representa a natureza. O resultado é um conceito. Ele leva meses para concluir um quadro. Aparentemente, para um fotógrafo, a realização do conceito é muito mais rápida, um clique em frações de segundo. Espero formar uma imagem até chegar ao clique. Sentei-me no topo de uma montanha do Alasca por horas até amadurecer a imagem que queria.

Época - O senhor encena fotos, como o índio que posa para um cenário de folhas. Isso não é uma armação?
Sebastião Salgado - Não. Crio um estúdio. Quem quer se fazer fotografar vem e posa.

Época - Seu trabalho é estético, como acusam os críticos, jornalismo ou denúncia?
Sebastião Salgado - Mais que isso: é a materialização da minha vida. Não me considero artista, antropólogo, militante. Fiz o que minha vida me levou a fazer. Isso me deu um grande conforto.

Época - Suas fotografias de invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nos anos 1990, repercutiram mundialmente e chamaram a atenção para a questão agrária no Brasil. O senhor avalizou a agenda de violência do MST. Como o senhor analisa a situação, passados dez anos de governo petista?
Sebastião Salgado - Lula e Dilma são meus amigos. Mas Lula e Dilma erraram, porque não fizeram a reforma agrária. Era o que o MST desejava. O MST foi violento em muitos momentos. Mesmo assim, tenho uma admiração pelo movimento, fiz um livro com o MST e faria outro naquele momento. Hoje, é diferente. O movimento não seguiu a trajetória a que se propusera inicialmente. Ele acreditava num governo que o apoiava, mas o governo entrou noutra lógica econômica: apostou mais no agronegócio que na produção familiar. Com a reforma agrária, teríamos fixado mais a população no campo, teríamos uma produção mais humana, porque o pequeno proprietário destrói menos que o grande e é melhor distribuidor de renda. O governo provocou um êxodo rural brutal. O PT, Lula e Dilma perderam o curso da história. Com a reforma agrária, hoje o Brasil seria um outro Brasil. Nossa natureza estaria mais preservada, e estaríamos mais ricos."

Revista Época
3 de junho de 2013

Edição Verde
Luis Antônio Giron

Editora Globo

Boas leituras!

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