quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Revistando: "A vida é um grande privilégio e aventura", Oliver Sacks, Revista Época, fevereiro de 2015


Verbos de ação
Oliver Sacks hoje, aos 81 anos, "Li, viajei, pensei e escrevi"

"A morte de alguém é sempre uma péssima notícia. Quando se trata de um ser humano excepcional, cujo trabalho tocou a vida de milhões de pessoas, o anúncio de uma morte iminente é simplesmente devastador. Na quinta-feira passada, quando Oliver Sacks anunciou que sofre de um câncer incurável e tem alguns meses de vida pela frente, um arrepio de emoção e tristeza percorreu o mundo. O médico inglês de 81 anos tornou-se famoso por livros que descrevem com sensibilidade e eloquência a situação de pessoas afetadas por doenças neurológicas. No artigo que escreveu para o jornal The New York Times, anunciando sua situação, ele fez algo parecido consigo mesmo. Descreveu a doença, e explicou sua inexorável evolução, mas então, numa reviravolta extraordinária, transformou o texto de despedida numa celebração contagiante da vida e de suas realizações.
"Não posso fingir que não estou com medo", ele escreveu. "Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso, e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura."
Num dos milagres de nosso tempo, esse testamento ganhou a internet e tornou-se viral. Gente que nunca tinha ouvido falar de Sacks ou de seus livros descobriu no mar de trivialidades do Facebook uma das personalidades científicas mais influentes das últimas décadas, capaz de dar dimensão humana a fenômenos que de outra forma seriam confinados ao debate acadêmico. O escritor Sacks deu aos pacientes do neurologista Sacks uma voz e uma identidade universais. O testamento do doutor Sacks deu um passo além. Forneceu a um número incalculável de leitores uma visão ao mesmo tempo corajosa e altruísta sobre a morte, inteiramente contrária ao escapismo ou à morbidez que dominam as discussões sobre o assunto. Entre a negação e a celebração, ele sugere a aceitação lúcida.
Sacks é um homem do século XX, herdeiro da tradição iluminista que celebra a ciência e o humanismo, assim como o papel fundamental do conhecimento na emancipação dos indivíduos. Nasceu em Londres em 1933 _ o mais novo dos quatro filhos de um casal de médicos judeus _ e passou na infância pela experiência aterrorizante dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Estudou medicina, especializou-se em neurologia e radicou-se nos Estados Unidos em 1965. Nos anos 1970, começou a publicar relatos excepcionalmente bem escritos sobre seus pacientes. Eles se transformaram, ao longo dos anos, numa coleção de 12 livros, que foram traduzidos para 23 idiomas. Um deles, Tempo de Despertar, de 1973, virou filme indicado ao Oscar, com os atores Robert de Niro e Robin Williams. Nele, Sacks conta sua experiência com o uso de uma droga capaz de despertar doentes de encefalite letárgica, que oscilavam por anos entre estados de sono profundo e vigília entorpecida. Nos próximos meses deverá ser publicada sua autobiografia, que recebeu o título On the move  (em movimento, em português).
Ler seus livros é mergulhar num universo fascinante de doenças esquisitas e pessoas extraordinárias. Um homem se percebe, repentinamente, incapaz de reconhecer o rosto da mulher com quem está casado há 30 anos. Outro começa a ouvir música do nada, depois de um acidente de automóvel. Uma moça perde inteiramente a sensibilidade corporal, devido a uma súbita doença causada pela ingestão exagerada de vitaminas. Esses casos assustadores poderiam se converter, em outras mãos, num circo de horrores capaz de alimentar a curiosidade perversa por doenças e sofrimento. Nos livros de Sacks não é assim. Ele torce o impulso perverso e o transforma em interesse generoso pelas pessoas por trás das doenças. Mostra com frequência como elas se adaptam a transformações que parecem intoleráveis e retornam às próprias vidas de outra forma. Suas histórias, mesmo quando trágicas, são contadas num tom leve, quase bem-humorado, que retira os pacientes da condição de vítimas passivas e os apresenta como protagonistas. No mínimo, sócios majoritários da doença na hora de conduzir suas vidas. Há em seus relatos um otimismo intrínseco, que parece emanar em igual medida da postura médica e de sua personalidade _ como o texto de despedida publicado na semana passada deixa entrever.
"Eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar, se eu tiver força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento. Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo", escreveu Sacks em sua emocionante carta de despedida.
Essa alegria de viver essencial, levada ao último ato da existência, não tem explicação óbvia na biografia sentimental de Sacks. Ele nunca se casou. Nunca dividiu sua vida ou sua casa. Não teve filhos. Dizia sofrer de uma "timidez doentia" que deve ter atrapalhado os relacionamentos românticos. Mas, ao contrário do que sugerem os clichês, o solteirão que emergiu dessa existência transbordava de energia, sentimentos e alegria criativa. Dedicou-se a amantes, amigos, pacientes e aos estudos. Além da escrita, claro. Não era nem de longe uma personalidade deprimida. Mesmo agora, diante da doença e da morte, reagiu com vivacidade e até bom humor, recusando-se a emitir um único som que pudesse ser interpretado como lamúria.
Seus livros estão a nossa disposição, assim como os filmes e programas de televisão inspirados por eles. Seu exemplo também ficará. Não apenas o do médico abnegado, do escritor brilhante e do homem que, diante da morte, sentou-se diante do computador e nos deixou um legado de esperança e alegria. O que mais me comove na atitude desse menino que nasceu no mesmo dia que eu, em 9 de julho, é um detalhe: a capacidade de transformar uma doença que o afligiu a vida inteira _ a prosopagnosia, que impede o reconhecimento das feições dos outros _ numa carreira médica na neurologia e depois num caminho extramente pessoal como escritor.
"Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado 1 milha por dia. Mas a minha sorte acabou _ há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar de a radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados."
Nós, que desfrutamos o que ele viveu e escreveu, somos os sortudos."
     

Revista Época
22 de fevereiro de 2015

Seção Reportagem da semana
Ivan Martins

Editora Globo

Boas leituras!

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