quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Prefácio Livro Seis Novelas W. Somerset Maugham



Rogo ao leitor que não se deixe iludir pelo fato de serem contadas estas histórias na primeira pessoa do singular, supondo que elas tenham acontecido a mim. Há, para o escritor, três maneiras de contar uma história. Pode fazê-lo do ponto de vista divino, como quem sabe tudo que é possível saber a respeito das suas personagens; vê-lhes todas as ações e conhece-lhes os pensamentos mais íntimos. Foi neste plano que se escreveram muitos romances entre os maiores da literatura mundial, e foi também nêle que se colocaram Maupassant e Tchékhov para escrever muitos de seus melhores contos. É um método simples e bom. Seu inconveniente está na impersonalidade, pois o autor falta ao compromisso, quando desce (como o fizeram muito amiúde Trollope e Thackeray) a comentar pessoalmente as suas personagens e os respectivos problemas ou atitudes. Nesse caso êle passa a fazer parte da história exatamente como se fôsse um dos seus atores. A objetividade dá muitas vêzes uma leve sensação de aridez. A objetividade completa é talvez coisa inatingível. Com efeito, ela daria um resultado, romances de tamanho excessivo e tornaria quase impossível a história curta. Tôdas as personagens seriam consideradas do seu próprio ponto de vista, pois que cada um de nós se reveste de suprema importância para si mesmo, e não há razão para o autor dê mais atenção a êste do que àquele. No momento em que escolhe uma pessoa entre várias para fazer uma descrição mais pormenorizada, deixa de ser rigidamente objetivo. Logo que a sua simpatia entra em jogo, êle se torna parcial. É, provavelmente, o interêsse dirigido que torna legível uma obra de ficção. "A Educação Sentimental" de Flaubert é, creio eu, um dos raríssimos exemplos em que o autor alcançou a objetividade completa; e o efeito geral é de tédio, porque ao invés de dirigir o nosso interesse êle o dispersou com tôda imparcialidade. Outra dificuldade do método está no sem-número de coisas que o autor deve saber, ou fingir que sabe. Seria preciso ter na unha todos os conhecimentos armazenados na Enciclopédia Britânica. Seria preciso estar familiarizado com as profissões de tôdas as suas personagens. Como isso é impossível, nota-se nêle a tendência de limitar-se aos ambientes de que tem experiência própria e colocar as suas personagens nos quadros sociais que conhece pessoalmente.
Outro método de contar uma história _ e método que por algum tempo gozou de considerável preferência _ é fazê-lo do ponto de vista de uma das personagens. Pode ser esta uma das que representam papel essencial na história ou um simples observador, e a êste último chamarei o método Seu-Amigo-Carlos. Seu Amigo Carlos faz o papel do côro dos dramas gregos. Observa e comenta; está ali para que lhe exponham circunstâncias de que o leitor deve ter conhecimento, e de vez em quando toma uma parte discreta e secundária na ação. É um mensageiro útil. Pode servir para complicar uma situação ou deslindar um mistério. Para o autor, êle apresenta a vantagem de poder ser caracterizado; existe, contudo, o perigo de que aquêle lhe dedique demasiada atenção, tornando-o tão interessante que obscureça as pessoas e incidentes sôbre os quais está encarregado de lançar luz. Além disso, como êle deve estar envolvido em tôdas as questões e, no interêsse da marcha da história, conservar os ouvidos abertos a tudo o que se passa, corre muitas vêzes o perigo de parecer um bisbilhoteiro e um intrometido cacête. Henry James, que fêz uso do método com grande perícia, dando-lhe assim a voga de que êle já gozou, nem sempre soube evitar êsse escolho. Talvez seja preferível o outro plano, que consiste em narrar uma história através de  uma das suas personagens principais, ou mesmo do protagonista. É muito natural focalizar neste o interêsse e, vendo pelos seus olhoso tudo quanto se passa, atraímos para êle a simpatia do leitor. Isso limita o assunto de maneira muito conveniente; pois, quer contemos a história do ponto de vista do protagonista, quer de Seu Amigo Carlos, não precisamos dizer ao leitor senão aquilo que a personagem em aprêço sabe. Encaramo-la pela face interior e às demais, pela exterior. Só nos interessam as suas impressões sôbre elas. É um método cuja economia agrada e a unidade de efeito que dêle resulta possui uma elegância formal. O único defeito real que percebo aí é a unilateralidade; facilmente se tem a impressão de que as outras pessoas da história não são tratadas com espírito equitativo. Isso constitui uma desvantagem quando sentimos a necessidade de conhecer o pensamento das outras personagens. Ao chumbar os seus dados o autor provocou o nosso descontentamento.
Em terceiro lugar, uma história, seja ela comprida ou curta, pode ser escrita na primeira pessoa; e, também neste caso, o narrador pode ser o protagonista ou apenas um observador. O primeiro dêstes métodos tem sido um grande favorito dos autores desde que se começou a escrever ficção, e alguns grandes romances foram escritos dessa forma. Sempre gozou de grande estima na narração de aventuras. Tem muita vividez. Sua forma direta é sedutora. Com efeito, quem poderia conhecer melhor os fatos do que aquele que foi seu ator principal? Demais, o efeito de verossimilhança que daí resulta é incomparável. Sempre teve, porém, um pequeno inconveniente: parecia um tanto impróprio de um herói contar os seus atos de bravura, comprazendo-se nos pormenores e era-lhe difícil expor as conquistas de corações femininos que lhe valeram o seu encanto pessoal e a sua galanteria. Os escritores esfalfavam-se por mostrar, através da bôca do herói, que êste era valente, belo, inteligente e generoso. Mas o maior defeito do processo estava em que o narrador tinha grande dificuldade para assumir vida. Coisa singular: embora êle falasse, amasse, lutasse, estivesse constantemente agindo e contando o que fazia, seus contornos não se definiam. As pessoas a quem encontrava podiam ser criaturas vivas, fáceis de reconhecer, fortemente individualizadas, enquanto êle permanecia estranhamente vago. Tomemos um exemplo apenas: David Copperfield é, sem dúvida, a figura menos notável da vasta galeria em que se diz a personagem principal. Talvez isso não tivesse grande importância em se tratando de livros de aventuras; sentimo-nos tão empolgados pelo que acontece a Gil Blas que não nos preocupamos com o fato de nunca chegarmos a descobrir que espécie de homem êle é na realidade. Quando, porém, o interêsse de escritores e leitores começou a se voltar para o romance psicológico, êsse defeito tornou-se sério. Quando nossa atenção se focaliza nos estados mentais de preferência aos fatos físicos, não ficar individualizado o protagonista é uma imperfeição fatal. É a isso que atribuo o ter caído em desfavor, nestes últimos tempos, o romance escrito na primeira pessoa hipotéticamente pela personagem principal.
Só nos resta considerar, pois, o método em que o narrador não é parte essencial da história, mas apenas uma testemunha. É de acôrdo com êle que estão escritos os contos contidos neste livro. É verdade que, como o método Seu-Amigo-Carlos, expõe o narrador a assumir a aparência de um ocioso intrometido, e se êle logra a verossimilhança visada, de forma que o leitor aceite como a santa verdade o que lhe dizem, afigurar-se-á muitas vêzes aos ingênuos que êle está traindo indignamente segredos alheios. Esta é uma acusação que êle deve estar preparado para receber de boa sombra. Por outro lado, como não conta nada a respeito de si mesmo, não há ofensa à modéstia, e visto que o leitor não precisa conhecer coisa alguma acêrca do narrador o fato de êle ser um simples manequim, não tem importância. O método também tende a estabelecer intimidade entre leitor e escritor. Permite a êste introduzir na história um pouco do encanto peculiar ao ensaio. Será uma qualidade ou um defeito? Isso é questão de opinião. Quanto a mim, parece-me que quando o fazemos com felicidade, isso estabelece um clima de palestra, um certo "sans façon" capaz de aliviar a tensão de uma história construída em rígida obediência às regras. Também aqui o escritor não tem pretensões à onisciência; limita-se a contar o que sabe e, quando o móvel de uma ação lhe é obscuro ou desconhece um fato, confessa-o francamente. Pode, assim, dar à história um ar de plausabilidade que de outra forma talvez lhe faltasse.
Descobriram os romancista que é possível emprestar à revelação gradual do caráter de uma personagem tôda a emoção de uma novela policial. É êste um elemento relativamente novo na ficção e, para muitos, constitui o seu maior interêsse. Se o romancista é onisciente, porém, está fazendo o leitor de tolo quando lhe oculta fatos importantes só para mantê-lo em suspenso. Nada há mais exasperante do que ter de esperar trezentas páginas para descobrir uma coisa que o autor já conhecia, desde o comêço. Mas neste processo, como também no de Seu Amigo Carlos, o escritor caminha de mãos dados com o leitor. Não lhe diz senão o que sabe o leitor compartilha com êle a satisfação da descoberta gradual.
Êle tem, no entanto, um grande defeito. Em tòda história existem cenas a que nem o narrador nem Seu Amigo Carlos poderiam ter assistido, e diálogos que não lhes seria possível ouvir. Embora se admita que os incidentes lhe tenham sido relatados de forma que êle possa tornar a contá-los com bastante exatidão, é incrível que seja capaz de reproduzir, baseado no que ouviu a terceiros, as palavras textuais que uma pessoa disse a outra. Se vai ao ponto de descrever o aspecto das personagens na ocasião em aprêço e o que elas sentiam, o leitor estaca abruptamente, tomado de incredualidade. As conversações, ainda quando o narrador estêve presente e tomou parte nelas, são difíceis de aceitar. "Como é possível que êle se lembre de tudo isso?" perguntamos. Mas quando conta uma história de forma indireta, isto é, quando transmite um caso que lhe foi narrado por outrem, não podemos crer que êste narrador, um delegado de polícia, por exemplo, ou um capitão de navio fôsse capaz de se exprimir com tanta facilidade e tanta arte. Os novelistas têm procurado resolver esta dificuldade de vários modos. Rudyard Kipling, pelo uso abundante da linguagem dialetal e de um modo de falar que tinha grandes visos de verossimilhança, tratava de encobrir ao leitor o admirável sentido da forma e o instinto quase milagroso do efeito dramático que possuíam os seus simples soldados. Ninguém cultivou com mais meticuloso cuidado do que Henry James o método Seu-Amigo-Carlos. Alguns acharão, talvez, que não valia a pena dar-se tanto trabalho e que seria preferível fazer como Joseph Conrad, por exemplo, não tratando a convenção mais respeito do que ela merece. O Capitão Marlowe é inteiramente inverossímil, e contudo o leitor razoável acredita nêle. Tôda convenção tem as suas desvantagens. Estas devem ser disfarçadas na medida em que tal coisa fôr conveniente, mas quando não o podem ser senão em detrimento de fatôres mais importantes, torna-se forçoso aceitá-las. O autor pega então o leitor pelo gasnete e o obriga a engolí-las. Pior sorte, encontra-o geralmente disposto a fazê-lo de muito bom grado."

Excerto extraído do livro Seis Novelas
W. Somerset Maugham

Tradução de Leonel Vallandro

2ª edição

Editôra Globo
1965

*Texto de acordo com a grafia do livro.

Boas leituras!
   

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