sábado, 4 de março de 2017

Entrevista com Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo, Diário de uma favelada


"A entrevista que segue foi organizada a partir de depoimentos e textos da autora, e reproduz fielmente a linguagem dos originais.

Por que a senhora começou a escrever?

Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário.

Como surgiu seu interesse pela literatura?

Seria uma deslealdade de minha parte não revelar que o meu amor pela literatura foi-me incutido pela minha professora, dona Lanita Salvina, que aconselhava-me para eu ler e escrever tudo que surgisse em minha mente. E consultasse o dicionário quando ignorasse a origem de uma palavra. Que as pessoas instruídas vivem com mais facilidade.

O que significou a literatura para sua vida?

A transição de minha vida foi impulsionada pelos livros. Tive uma infância atribulada. É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter. Se não fosse por intermédio dos livros  que deu-me boa formação, eu teria me transviado, por que passei 23 anos mesclada com os marginais.

Como é que uma pessoa que não teve educação escolar consegue compreender e expressar tão bem a realidade dos pobres e dos miseráveis?

Não é preciso ser letrado para compreender que o custo de vida está nos oprimindo.

A senhora pensava em publicar o que escrevia? Como é que a senhora fazia e como foi que conseguiu a publicação afinal?

Cansei de suplicar as editoras do país e pedi à editora Seleções ( do Reader's Digest ) nos Estados Unidos se queria publicar meus livros em troca de casa e comids e enviei uns manuscritos para eles ler.
Devolveram-me... Depois que conheci o repórter (Audalio Dantas) tudo transformou-se. E eu enalteço  o reporter por gratidão.

O que a senhora sentiu quando viu o livro Quarto de Despejo pronto, encadernado, com seu texto em letra de imprensa?

Fiquei alegre olhando o livro e disse: "o que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor". E li o meu nome na capa do livro. "Carolina Maria de Jesus. Diário de uma favelada. Quarto de despejo". Fiquei emocionada. É preciso gostar de livros para sentir o que eu senti.

De onde veio a idéia para o nome do seu livro?

É que em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres, que residiamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.

Ao que a senhora atribui o sucesso de público do seu Quarto de despejo?

Eu não sei o que eles acham no meu diário. Fico pensando o que sera Quarto de despejo?, umas coisas que eu esctevia ha tanto tempo para desafogar as misérias que enlaçavam-me igual o cipó quando enlaça as árvores, unindo todas.

Depois da publicação, a senhora ficou famosa. Passou a frequentar ambientes diferentes do da favela. Conheceu intelectuais, políticos, gente rica. Foi difícil seu contato com esse outro tipo de gente?

Não. Conversamos e eu fui perdendo o acanhamento e tinha a impressão de estar no céu. A minha cor preta não foi obstáculo para mim. E nem os meus trajes humildes. Chegavam repórteres, entrevistavam-me, fotografam-me, ficavam lendo trechos do meu diário.

E o seu relacionamento com o pessoal da favela mudou depois da fama?

Muita gente passou a achar que eu fiquei rica. Procuravam-me como se eu fosse dona de uma fortuna. Queriam propor negócios malucos. Queriam pedir empréstimos, pedir auxílio descabidos. O que me dói é que se aproximavam fantasiados de honestos. Pedem, exigem quase, como se eu não fosse apenas mãe da Vera, do João e do José Carlos, mas a mãe de todos. Pedem e depois não pagam.

Mas foi bom mudar de vida, escapar da miséria e conhecer um mundo diferente daquela favela?

Decepção. Pensei que houvesse mais idealismo, menos inveja. Mas aqui há não só muita ambição, mas também o desejo de vencer a qualquer preço. Mesmo que os meios empregados sejam podres. Quando matei um porco, lá na favela do Canindé, alguns vizinhos exigiram um pedaço de carne. Rondavam meu barraco feito bicho que fareja presa. Lá na favela era o porco, aqui é o dinheiro. No fundo é a mesma coisa. Lembrei do meu provérbio: "Não há coisa pior na vida do que a própria vida".

Em seu livro, a senhora, além de mostrar a realidade dos favelados, fala mal dos políticos, dos poderosos. A senhora, sendo pobre e desprotegida, não tinha medo de fazer essas denúncias e acusações?

Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, por volta de 1915. Foi empregada doméstica em São Paulo, onde, mais tarde, passou a catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis, para sobreviver. 

Em reportagem sobre a favela do Canindé, onde vivia Carolina, o repórter Audalio Dantas a conheceu e descobriu que a favelada escrevia um diário.

Surpreso pela força do texto, o jornalista apresentou-o a um editor. Uma vez publicado, o livro trouxe fama e algum dinheiro para Carolina. O suficiente para deixar a favela, mas não o bastante para escapar à pobreza. 

Quase esquecida pelo público e a imprensa, a escritora morreu num pequeno sítio na periferia de São Paulo, em 14 de agosto de 1977."

Excertos do Livro Quarto de Despejo, Diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus

Editora Ática
1993

Boas leituras!


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