segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

16 de janeiro, 412 anos de Dom Quixote

Arquivo Pessoal/2014

"Em 16 de janeiro de 1605, Miguel de Cervantes, então próximo dos 60 anos, publicou em Madri a primeira parte de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Naquele dia, os romances de cavalaria e a mentalidade medieval como um todo receberam um golpe mortal. No livro, que é considerado a obra fundadora da literatura espanhola, Cervantes narra a saga de um nobre que sonhava com aventuras incríveis de cavalaria mas não conseguia ver a miséria da realidade que o cercava.

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O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele atua. Cem anos antes, Quixote teria sido um herói a mais nas crônicas ou romances de cavalaria, mas ele havia se enganado de século. Sua loucura residia no anacronismo. Isso permitiu ao autor fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começava a duvidar de si mesma.

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Foi em uma Espanha em crise que Cervantes criou seu cavaleiro fora do lugar. Nesse reino decadente, as classes superiores eram incapazes de gerar riquezas e se refugiavam na trilogia: “Igreja, mar, casa real”. Os nobres viviam para defender a própria honra, e sua única fortuna estava na espada. Como diz Cervantes: “Com razão, os príncipes deveriam estimar esse primeiro tipo de cavalaria, pela qual (...) alguns garantiram não somente a salvação de um reino, mas a de muitos (nobres)”. Diante dessa cavalaria de “velhos cristãos”, emergia também uma nova nobreza, que vivia da riqueza da corte e só conhecia o inimigo de ouvir falar. Todos os ambiciosos conspiravam para se apoderar das migalhas do poder.

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No fim da vida, cheio de pessimismo em relação ao mundo real que redescobriu ao recobrar a sanidade, o moribundo Quixote pede perdão a Sancho por tê-lo arrastado em sua loucura e lamenta não ter podido lhe oferecer um reino, que ele bem merecia, por sua fidelidade. Perdida a glória, restava a virtude da caridade: “Eu fui Dom Quixote de La Mancha, e agora sou Alonso Quijano, o Bom”. No leito de morte, distribuiu seus parcos bens àqueles que o cercavam, mas advertiu a sobrinha de que ela seria deserdada se viesse a se casar com algum leitor de romances de cavalaria. Saía de cena o cavaleiro errante e surgia uma outra figura, que o jesuíta Baltasar Gracián chamaria de “o Sábio” e Molière de “o Fidalgo”. Um novo modelo de homem para o século XVII."

Belíssimo artigo: Dom Quixote escapa da inquisição por Thérèse JerphagnonJerphagnon
História viva UOL
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/dom_quixote_escapa_da_inquisicao.html

Boas leituras!



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