quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Anita e Garibaldi, A Guerra dos Farrapos de Alcy Cheuiche


"Desde que vira pela primeira vez aquele homem dourado, aquele corsário de barbas e cabelos louros que a devorava com os olhos, nada mais fizera para manter Manuel as o seu lado. 
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O homem louro povoava todos os seus pensamentos. Pensando nele, sentia-se melhor."

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"No seu camarote, as bordo do " Rio Pardo", o homem barbudo e louro acordou-se com as primeiras luzes da manhã.

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_ Mais um mate, capitão?
_ Aceito, grazzie.
Garibaldi sorveu o líquido amargo e pensou em Manuela. A moça loura de olhos azuis, que por tanto tempo lhe inspirara amor.

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Ansiava por estar só. Por espreitar a mulher morena que o fascinara.

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Prometera a si mesmo que hoje confessaria seu amor àquela mulher."


"Tudo começara três meses antes do ataque de " Chico Pedro" ao estaleiro farroupilha. Há muito tempo, Bento Gonçalves  pregava a necessidade de levar a revolução para além do Rio Grande. 

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É o dia 4 de julho de 1839. Os lanchões sobem lentamente o arroio margeado de salsos desfolhados. 

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Primeiro foi preciso vencer os lodaçais da várzea. Depois, os areais traiçoeiros, onde os bois perdiam as forças.

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Garibaldi se multiplicava em todos os lugares. Muitas vezes se afastava a galope para longe da caravana. E contemplava os dois barcos no alto das carretas, as longas filas de bois e homens em constante movimento, como um artista contempla a sua obra-prima. No silêncio da noite, já se ouvia o rugido do mar. Passo a passo foram vencidas cinqüenta e quatro milhas de difícil terreno. Nenhum acidente interrompeu a marcha. Em seis dias, chegavam às margens do Rio Tramandaí. "


"Onze horas da manhã no relógio da igreja. Ana desperta com o bimbalhar dos sinos. Senta-se à cama e sorri. Sua mente está livre de remorsos. Manoel conseguiu fugir. Não tinham filhos. Nunca tiveram amor. Agora ambos estão livres. 

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Dirige-se à beira do cais e ergue a vista para a escuna as ancorada na enseada. A maior delas e mais próxima. Seu coração dispara. O homem dourado está junto da amurada. Com o binóculo, deve estar vendo todos os detalhes. O rubor lhe sobe pelas faces. Com a mão livre, ergue o decote do vestido. Levanta s cabeça e apressa o passo.

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Garibaldi grita pelo escaler e não tarda a chegar à praia. A moça morena sumiu-se pelo mato na encosta do morro. 

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Silêncio. Apenas o ruído da fonte lhe chega aos ouvidos. Está frio à sombra das árvores. Frio e úmido. Mais alguns passos e confronta-se com a moça morena. Ana sustenta com altivez o seu olhar. Garibaldi se aproxima até quase tocá-la. Ouve sua própria voz, estranha e rouca.
_ Anita! Tu devi esser mia."

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A República Catarinense durou pouco mais de três meses. Em novembro de 1839, rechaçados por tropas poderosas, os farroupilhas de David Canabarro retiram-se de volta ao Rio Grande. A armada imperial ataca Laguna. A bordo do "Rio Pardo", Anita é a primeira a disparar um tiro de canhão. Mas a batalha é desigual. Garibaldi ateia fogo nos navios e foge com os poucos sobreviventes. Anita o acompanha. Durante dez anos viverá e morrerá a seu lado."


"Eu seguia a cavalo para o Rio Grande, com a mulher do meu coração ao lado. Cavalgava na vanguarda de uns poucos companheiros, sobreviventes de muitas batalhas. Mas que me importava não ter mais roupa do que a que me cobria o corpo e servir uma pobre República que a ninguém podia pagar um soldo? Eu tinha um sabre e uma carabina que levava atravessada diante dos arreios. E tinha Anita, meu maior tesouro."

Livro A Guerra dos Farrapos, Alcy Cheuiche
Habitasul, 1984
*Edição comemorativa ao sesquicentenário da Revolução Farroupilha.

Boas leituras!

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