sábado, 10 de setembro de 2016

10 de setembro de 1837, fuga de Bento Gonçalves da Fortaleza do Mar


"_Quem é esse homem que tá preso no Forte do Mar, sô capitão?
_ Um liberal lá do sul. Diz que muito valente. Esteve preso no Rio de Janeiro e tentou fugir. Por isso trouxeram pra Bahia.
_ E o que ele fez de mal?
_ Tava guerreando contra os caramurus. Como nós aqui em Itaparica."


"Espichando o corpo na horizontal, o prisioneiro começou a nadar com a maior rapidez possível. Nadava com a cabeça fora da água, os olhos fixos na canoa, que crescia cada vez mais a sua frente. Nadava com raiva, com convicção. Não tardou em vencer mais da metade da distância. Depois começou a sentir um entorpecimento no corpo. Um início de câimbra na perna esquerda. Mas não diminuiu o ritmo das braçadas. Até quase bater com a cabeça no casco da canoa."


"_ Trouxeram o prisioneiro, pai?
_ Não é mais prisioneiro, Corumim.

...

_ De que raça o senhor é, moço?
_ Sou do Rio Grande. Uma raça dura. Mas estou morrendo de sede.
_ Por que não falou logo? Gosta de água de coco?
_ Não sei. Nunca tomei.

...

A pedido do Corumim, o mulato Januário puxou o facão e tirou uma lasca do coco. No segundo talho, a água espirrou.
_ Pode beber, seu moço. É agua de Deus.
Bento levantou o coco com as duas mãos e sorveu o líquido com delícia. Nunca mais iria esquecer aquele gosto. Seria, para sempre, igual ao gosto de liberdade.

...

Era o dia 10 de setembro de 1837. Bento Gonçalves estivera na prisão durante onze meses e seis dias. Ainda levaria dois meses para chegar ao Rio Grande. E mais um mês e alguns dias para assumir a Presidência da República, a 16 de setembro de 1837, na cidade de Piratini."

Livro "A Guerra dos Farrapos", Alcy Cheuiche
Habitasul, 1984.
*Edição comemorativa ao sesquicentenário da Revolução Farroupilha.

Boas leituras!



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